quarta-feira, 9 de julho de 2014

Maria-Militante

PASSEATA


Abaixe essa voz!
Erga os braços por amor
não por ódio!
Quais são as suas lutas?
Meia dúzia de mulheres caladas
Atravessadas por labaredas de fogões
e vaginas em chamas
por debaixo dos seus vestidos?
-se o vestido vira brasa
morre a mulher
nasce a devassa-.

Abaixe essa arma!
Erga a cabeça por recusa
não por obediência!
Pela liberdade de ser
o que for
ou não for
e ainda assim
ser.

O propõe a sua guerra?
Milhares de mortos cobertos de branco
escondendo a juventude negra e pobre
E o conjunto fardado jurando a bandeira
cantando o hino do progresso
Da economia ensacando corpos
Da sociedade fabricando alvos
Das migalhas da vida suplicando
por liberdades fora do compasso?

Na minha passeata os inimigos
são convocados
A vida miserável que você produz
­– e que você enxota –
Vira o espelho que te causa asco.

Por existir, por viver
Por insistir
ainda que cambaleante
ainda que louca
travestida
ainda que prisioneira
bandida
ainda que puta
vagabunda
ainda que drogada

Enquanto seu coturno destroça minha carne
minha luta segue em disparada
ainda que miúda
ainda que pequena
Minha luta não é carne
que se rasga e costura
Sobrevive à tortura
por ser alma:
É postura.

Não está em mim
Não existe ‘Eu’
Acredita no verbo
Agir
Amar
Viver

Abaixe esse fogo!
Na ponta de uma arma
não se encontra a paz:
A paz não tem cor
Nem sexo
Nem Deus
A paz não mata
A paz não manda
A paz se faz
Com as apostas
de nós
Com a indiferenciação
Entre os Outros
e os meus.
- Poema de Patrícia Peterli-.


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