SOBRE MARIAS E BRASIS


As Marias são as várias mulheres que coexistem, dividindo o imenso território brasileiro de maneira tão diversa e também tão desigual. As Marias são, sobretudo, as Marias-negras, Marias-lésbicas, Marias-loucas, Marias que não desejaram ou não desejam a maternidade. As Marias que por constructos históricos são produzidas como desqualificadas e invisíveis. E somente incomodam quando berram, quando morrem aos montes ou quando recusam o lugar que historicamente vem sendo construído para que sejam fadadas a ocupar: a cozinha, os subempregos, os menores salários, a maternidade.

As Marias são também as que lutam. As que envergam. Marias-desdobráveis. Marias-travestis, Marias-deficientes, Marias-trans, Marias-jovens, Marias-pobres. As Marias são um coletivo de vozes que luta por igualdade de direitos. São as que resistem ao pensamento dominante de pertencerem ao sexo frágil, de localizarem-se na submissão. Aqui, clamam as Marias-guerreiras. As Marias que envergonham o gênero pautado nos livros de etiqueta. As Marias que abrem as pernas ao se sentarem ou por desejo. Porque lutam para que sejam donas do próprio corpo. 

Esse blog é um instrumento que busca articular teoria e prática, e, mais do que isso, aos passos de Foucault(1), propõe produzir revezamentos entre ambas, entendendo que não se aplica a teoria na prática, mas que elas são constituídas de múltiplos revezamentos que compõem novas ações. 

É sempre de ação que se trata. Conforme afirma Foucault, a teoria  é como uma caixa de ferramentas e, portanto, é preciso que sirva, é preciso que funcione. Nosso intuito com essa página é exatamente fazer dela uma caixa de ferramentas a serem utilizadas, passadas adiante em forma de ação.

Por postura ético-política, em afinidade com a proposta teórico-metodológica da Pós Graduação em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça, da qual os autores desse blog são estudantes, o espaço de discussão será utilizado para legitimar as vozes de pessoas produzidas como humanamente inferiores, seja por questões de gênero ou raça/etnia, e levantar questionamentos e dados sobre as ações em prol dessa população na capital do estado do Espírito Santo, Vitória, no campo da saúde. 

E, partindo da afirmação de Foucault de que "onde há poder há resistência"(2), esse blog assim se pretende: ser um espaço de resistência aos valores instituídos, produzindo brechas para que novos saberes e práticas sejam legitimados, apostando na ampliação e afirmação da vida em suas variadas formas!

Sejam bem vindos!

(1) FOUCAULT, Michel. Os intelectuais e o poder. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
(2) FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1985. p. 91.

Adriana Bazani, Benedito de Castro, Elisenda Maria, Patrícia Peterli e Sérgio Adriany.




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