Sobre o discurso acadêmico e a afirmação de modos de vida mais libertários
Eu poderia
pegar os dados de violência contra a mulher no estado do Espírito Santo e fazer
um post importante sobre a forma como o machismo tem matado. Poderia dizer dos
poucos dados acerca da violência direcionada à população LGBT. Poderia utilizar
essas linhas que me são obrigatórias para passar para o módulo final do curso
de Pós Graduação em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça e escancarar
os vergonhosos índices de homicídio no estado onde vivo. Mas há algo que vem me
provocando a necessidade de escrever e que está tão perto, mas tão perto... que
por vezes parece estar dentro de mim.
Esse
post surgiu para muito além da obrigação de passar de módulo num curso de
especialização. Eu escrevo porque preciso e não é de obrigação que falo. Preciso
escrever porque não cabe em mim. Porque as linhas me contorcem e me obrigam a
pari-las: desde a infância é assim. E se hoje escrevo, é porque o assunto vem
causando o incômodo necessário para que essas linhas se componham.
Venho falar do que temos produzido nos espaços
acadêmicos: para que ou para quem temos utilizado nosso conhecimento? Para a
construção de qual mundo colaboramos com aquilo que debatemos, que discutimos,
que nos faz receber diplomas e certificados tão valiosos no mercado de trabalho?
O que queremos com isso? O que temos feito das nossas discussões e dos nossos
questionamentos acadêmicos?
Em
tempos de eleição, o fascismo tem se mostrado sem máscara, nem óleo de peroba.
O que considero importante, vez que à mostra e sem muitos artifícios podemos
encontrar meios de identificá-lo e combatê-lo. Encontrei uma série de depoimentos
nas redes sociais achincalhando nordestinos, uma boa parte defendendo a divisão
do país, outros desejando que o Brasil exploda, e outros, ainda, dizendo que
não se poderá questionar a violência nos próximos anos, coisas que considero graves.
Esse
post não é sobre as eleições. Mas sobre o temos feito de nós e do mundo que
ajudamos a construir quando nossas expectativas frustram. Ou o que temos sido
capazes de esbravejar para que nossas expectativas não frustrem.
O
discurso acadêmico tem sido utilizado nessas eleições como forma de dividir a
nação entre aqueles cujo pensamento é válido, porque parte do que se valoriza
como verdadeiro na cultura ocidental, e aqueles cujas palavras nada importam,
pois mal frequentaram bancos de universidades, escolas ou pouco acesso tiveram
a livros que os embasassem em suas falas. Desse modo vamos temperando um mundo em
que os porteiros são calados e as empresas de segurança sequestram o seu olhar,
reproduzem-no de forma técnica e lucram milhões com isso.
O discurso
acadêmico tem sido utilizado nos mais variados espaços para invalidar um outro
tipo de saber que sai da boca de qualquer um, que legitima qualquer um a
afirmar suas experiências, lá onde elas acontecem.
Tenho
me perguntado o que temos produzido na pós graduação em GPPGR, o que queremos
quando estudamos e nos especializamos: desejamos ser especialistas do que? Nosso
especialismo será usado para que ou para quem?
Uma das
lições que Foucault nos ensinou é da indignidade de falar no lugar do outro. O
discurso acadêmico tem sido utilizado, inclusive, para encobrir a voz daqueles
que são construídos historicamente como invisíveis e, dessa forma, emudecê-los
ainda mais. Segundo o filósofo, há um sistema de poder que invalida e
deslegitima esse saber não-acadêmico, um “poder que não se encontra somente nas
instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito
sutilmente em toda a trama da sociedade”[1].
É esse
poder incrustado em nosso comportamento que faz com que a democracia só faça
sentido quando serve aos nossos interesses. É esse poder que bate junto com o
nosso coração que faz serem tão difíceis as construções coletivas de fato.
É certo
que não somos nós, individualmente, que produzimos os discursos fascistas,
racistas, preconceituosos e homofóbicos. Mas não podemos negar que, enquanto
especialistas, há forças dominantes que nos empurram para o lugar comum de
reafirmar e reproduzir tais preconceitos. E o mais grave: reafirmar e
reproduzir preconceitos do lugar de saber que é entendido como verdadeiro em
nossa cultura.
É
esse saber acadêmico entendido como superior que fortalece os discursos dominantes
e produz lugares que abrigarão na sociedade as mesmas mulheres submissas, que
produz a vergonha de falar do orgasmo feminino, que produz os bons modos da
mulher, que produz o macho Alfa, que produz a mulher-esposa-dona-de-casa, que entende
o homossexual como um problema, que aproxima pobreza e criminalidade.
Especialistas
têm sido convocados a ditarem normas e manuais de comportamento, a divulgarem
verdades que interessam a alguns e definirem aqueles que não se enquadram nos
modelos esperados de bom cidadão, bom pai, boa mulher, bom estudante, bom
profissional, etc. Uma indústria de modos de vida tem suas engrenagens
azeitadas produzindo subjetividades desejosas por modos de ser e viver que caibam nos
territórios bem delimitados, ditados por aqueles legitimados a proferirem e produzirem verdades.
Concomitantemente,
há profissionais que buscam utilizar seus lugares de saber na sociedade
exatamente para combaterem a lógica dominante e afirmarem os saberes locais,
parciais, dominados. De acordo com Foucault,
O papel
do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco
de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as
formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o
instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência",
do discurso.
Repito
agora e sempre: o que queremos num curso de especialização em gestão de
políticas públicas em gênero e raça? Queremos afirmar outros modos de vida mais
libertários, éticos, mais pretos, mais gays, mais diversos? Queremos deslegitimar
a negritude, o homossexual, as diferentes formas de vida, aprisionar a loucura,
oprimir o orgasmo de todos aqueles que sentem prazer?
Autoria
de Patrícia Peterli.
[1] FOUCAULT,
M. Os intelectuais e o poder. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Ed.
Graal, 20ª, 2004.
[2]
Ibidem.