sábado, 28 de junho de 2014

Cor de Maria: a situação da mulher negra no Brasil

O período colonial brasileiro deixou a herança de uma cultura escravocrata e a miscigenação que é atravessada pela violência sexual do colonizador branco contra o povo escravizado negro e indígena e que está nas entranhas da construção identitária do país.

De encontro ao mito da democracia racial, no que se refere às construções da mulher, algumas questões merecem destaque nas discussões sobre raça, e colaboram com problematizações atuais do lugar e dos papéis sociais atribuídos às mulheres, sobretudo às mulheres negras.

De acordo com Sueli Carneiro[1], fundadora do Instituto da Mulher Negra de São Paulo, muitas das questões que perpassam a construção social da mulher branca diferem da construção da mulher negra. Embora em relação às questões de gênero ambas tenham desqualificações e consequências perversas da cultura machista, no caso da mulher negra, há, ainda, a questão do racismo muito presente e que influencia sobremaneira na forma como esta mulher é socialmente construída.

A mulher negra é aquela, segundo Carneiro, que nunca se encaixou nos parâmetros de fragilidade exigidos na hora de receber a proteção paternalista dos homens: ela nunca foi “mulher frágil”. Ocupou desde muito cedo os trabalhos de prostituta, doceira, quituteira, vendedora e lhe pareceu tardio o grito feminista de “vamos ocupar as ruas!”, quando as ruas já estavam há muito ocupadas por ela. 

Enquanto a mulher branca é desqualificada, a mulher negra tem em seu histórico a coisificação. Entre mulheres brancas e mulheres negras há desigualdades e estas necessariamente precisam ser pensadas para que mudanças aconteçam.

Fala-se de um padrão estético de beleza branca. E fala-se de um emprego onde se exige “boa aparência”. Fala-se de uma prevalência religiosa que ainda desconhece os orixás e os deuses. Fala-se amém e reprime-se o axé. As políticas de saúde ainda não possuem o controle da cor dos seus usuários e isso impede que políticas específicas sejam pensadas para mulheres negras, por exemplo, a partir de suas necessidades. Assim, além da hegemonia masculina é preciso que outros mecanismos de opressão sejam combatidos, como é o caso do racismo.

O grande desafio do movimento feminista anti-racismo segundo Carneiro consiste em,


[...] buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além da sua condição de raça e gênero. Esse é o sentido final dessa luta.


[1] CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Diponível em https://rizoma.milharal.org/files/2013/05/Enegrecer-o-feminismo.pdf. Acessado em 25 de junho de 2014.

Texto de: Patrícia Peterli

sexta-feira, 6 de junho de 2014