O período colonial
brasileiro deixou a herança de uma cultura escravocrata e a miscigenação que é
atravessada pela violência sexual do colonizador branco contra o povo
escravizado negro e indígena e que está nas entranhas da construção identitária
do país.
De encontro ao mito da
democracia racial, no que se refere às construções da mulher, algumas questões
merecem destaque nas discussões sobre raça, e colaboram com problematizações
atuais do lugar e dos papéis sociais atribuídos às mulheres, sobretudo às
mulheres negras.
De acordo com Sueli Carneiro[1],
fundadora do Instituto da Mulher Negra de São Paulo, muitas das questões que
perpassam a construção social da mulher branca diferem da construção da mulher
negra. Embora em relação às questões de gênero ambas tenham desqualificações e consequências
perversas da cultura machista, no caso da mulher negra, há, ainda, a questão do
racismo muito presente e que influencia sobremaneira na forma como esta mulher
é socialmente construída.
A mulher negra é aquela,
segundo Carneiro, que nunca se encaixou nos parâmetros de fragilidade exigidos
na hora de receber a proteção paternalista dos homens: ela nunca foi “mulher
frágil”. Ocupou desde muito cedo os trabalhos de prostituta, doceira,
quituteira, vendedora e lhe pareceu tardio o grito feminista de “vamos ocupar
as ruas!”, quando as ruas já estavam há muito ocupadas por ela. Enquanto a mulher branca é desqualificada, a mulher negra tem em seu histórico a coisificação. Entre mulheres brancas e mulheres negras há desigualdades e estas necessariamente precisam ser pensadas para que mudanças aconteçam.
Fala-se de um padrão
estético de beleza branca. E fala-se de um emprego onde se exige “boa aparência”.
Fala-se de uma prevalência religiosa que ainda desconhece os orixás e os
deuses. Fala-se amém e reprime-se o axé. As políticas de saúde ainda não
possuem o controle da cor dos seus usuários e isso impede que políticas
específicas sejam pensadas para mulheres negras, por exemplo, a partir de suas
necessidades. Assim, além da hegemonia masculina é preciso que outros
mecanismos de opressão sejam combatidos, como é o caso do racismo.
O grande desafio do
movimento feminista anti-racismo segundo Carneiro consiste em,
[...] buscar um atalho entre uma
negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica
que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser
somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a
igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de
possibilidades e oportunidades para além da sua condição de raça e gênero. Esse
é o sentido final dessa luta.
[1]
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América
Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Diponível em https://rizoma.milharal.org/files/2013/05/Enegrecer-o-feminismo.pdf.
Acessado em 25 de junho de 2014.
Texto de: Patrícia Peterli
Texto de: Patrícia Peterli