terça-feira, 28 de outubro de 2014

FASCISMO E ACADEMIA

Sobre o discurso acadêmico e a afirmação de modos de vida mais libertários


Eu poderia pegar os dados de violência contra a mulher no estado do Espírito Santo e fazer um post importante sobre a forma como o machismo tem matado. Poderia dizer dos poucos dados acerca da violência direcionada à população LGBT. Poderia utilizar essas linhas que me são obrigatórias para passar para o módulo final do curso de Pós Graduação em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça e escancarar os vergonhosos índices de homicídio no estado onde vivo. Mas há algo que vem me provocando a necessidade de escrever e que está tão perto, mas tão perto... que por vezes parece estar dentro de mim.


Esse post surgiu para muito além da obrigação de passar de módulo num curso de especialização. Eu escrevo porque preciso e não é de obrigação que falo. Preciso escrever porque não cabe em mim. Porque as linhas me contorcem e me obrigam a pari-las: desde a infância é assim. E se hoje escrevo, é porque o assunto vem causando o incômodo necessário para que essas linhas se componham.

 Venho falar do que temos produzido nos espaços acadêmicos: para que ou para quem temos utilizado nosso conhecimento? Para a construção de qual mundo colaboramos com aquilo que debatemos, que discutimos, que nos faz receber diplomas e certificados tão valiosos no mercado de trabalho? O que queremos com isso? O que temos feito das nossas discussões e dos nossos questionamentos acadêmicos?

Em tempos de eleição, o fascismo tem se mostrado sem máscara, nem óleo de peroba. O que considero importante, vez que à mostra e sem muitos artifícios podemos encontrar meios de identificá-lo e combatê-lo. Encontrei uma série de depoimentos nas redes sociais achincalhando nordestinos, uma boa parte defendendo a divisão do país, outros desejando que o Brasil exploda, e outros, ainda, dizendo que não se poderá questionar a violência nos próximos anos, coisas que considero graves.

Esse post não é sobre as eleições. Mas sobre o temos feito de nós e do mundo que ajudamos a construir quando nossas expectativas frustram. Ou o que temos sido capazes de esbravejar para que nossas expectativas não frustrem.

O discurso acadêmico tem sido utilizado nessas eleições como forma de dividir a nação entre aqueles cujo pensamento é válido, porque parte do que se valoriza como verdadeiro na cultura ocidental, e aqueles cujas palavras nada importam, pois mal frequentaram bancos de universidades, escolas ou pouco acesso tiveram a livros que os embasassem em suas falas. Desse modo vamos temperando um mundo em que os porteiros são calados e as empresas de segurança sequestram o seu olhar, reproduzem-no de forma técnica e lucram milhões com isso.

O discurso acadêmico tem sido utilizado nos mais variados espaços para invalidar um outro tipo de saber que sai da boca de qualquer um, que legitima qualquer um a afirmar suas experiências, lá onde elas acontecem.

Tenho me perguntado o que temos produzido na pós graduação em GPPGR, o que queremos quando estudamos e nos especializamos: desejamos ser especialistas do que? Nosso especialismo será usado para que ou para quem?

Uma das lições que Foucault nos ensinou é da indignidade de falar no lugar do outro. O discurso acadêmico tem sido utilizado, inclusive, para encobrir a voz daqueles que são construídos historicamente como invisíveis e, dessa forma, emudecê-los ainda mais. Segundo o filósofo, há um sistema de poder que invalida e deslegitima esse saber não-acadêmico, um “poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade”[1].

É esse poder incrustado em nosso comportamento que faz com que a democracia só faça sentido quando serve aos nossos interesses. É esse poder que bate junto com o nosso coração que faz serem tão difíceis as construções coletivas de fato.

É certo que não somos nós, individualmente, que produzimos os discursos fascistas, racistas, preconceituosos e homofóbicos. Mas não podemos negar que, enquanto especialistas, há forças dominantes que nos empurram para o lugar comum de reafirmar e reproduzir tais preconceitos. E o mais grave: reafirmar e reproduzir preconceitos do lugar de saber que é entendido como verdadeiro em nossa cultura.

É esse saber acadêmico entendido como superior que fortalece os discursos dominantes e produz lugares que abrigarão na sociedade as mesmas mulheres submissas, que produz a vergonha de falar do orgasmo feminino, que produz os bons modos da mulher, que produz o macho Alfa, que produz a mulher-esposa-dona-de-casa, que entende o homossexual como um problema, que aproxima pobreza e criminalidade.

Especialistas têm sido convocados a ditarem normas e manuais de comportamento, a divulgarem verdades que interessam a alguns e definirem aqueles que não se enquadram nos modelos esperados de bom cidadão, bom pai, boa mulher, bom estudante, bom profissional, etc. Uma indústria de modos de vida tem suas engrenagens azeitadas produzindo subjetividades desejosas por modos de ser e viver que caibam nos territórios bem delimitados, ditados por aqueles legitimados a proferirem e produzirem verdades.

Concomitantemente, há profissionais que buscam utilizar seus lugares de saber na sociedade exatamente para combaterem a lógica dominante e afirmarem os saberes locais, parciais, dominados. De acordo com Foucault,

O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso.

Repito agora e sempre: o que queremos num curso de especialização em gestão de políticas públicas em gênero e raça? Queremos afirmar outros modos de vida mais libertários, éticos, mais pretos, mais gays, mais diversos? Queremos deslegitimar a negritude, o homossexual, as diferentes formas de vida, aprisionar a loucura, oprimir o orgasmo de todos aqueles que sentem prazer?

Autoria de Patrícia Peterli.

[1] FOUCAULT, M. Os intelectuais e o poder. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 20ª, 2004.

[2] Ibidem.

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